13.8.2007
Jonathan Nossiter: O Caçador de Vinhos

Há três anos, o cineasta e sommelier Jonathan Nossiter levou para as telas uma discussão até então restrita aos conhecedores de vinho. Com o documentário Mondovino, que competiu no Festival de Cannes em 2004, ele glorificou com algum exagero produtores tradicionais da bebida e transformou um tanto injustamente estrelas como o enólogo Michael Rolland e o crítico Robert Parker nos bichos-papões das videiras. Americano de nascimento e francês de criação, com longas temporadas passadas em países como a Itália, a Grécia e a Índia, Nossiter é, desde 2005, um carioca por opção. "Sou pai de três crianças nascidas aqui. Isso é um vínculo sagrado com a cidade, uma relação para a vida toda", proclama ele, que aos 45 anos acaba de dar entrada no pedido de naturalização – quer tornar-se brasileiro de direito. Mora no Horto, em uma casa espaçosa, com a mulher, a fotógrafa Paula Prandini (autora de várias fotos desta reportagem), três bebês e Chet, um cachorro da raça golden retriever.

No intervalo de seus filmes, alimenta objetivos nada modestos: fazer uma revolução. Não está em seus planos usar tanques ou armamentos pesados. A revolução que Nossiter imagina envolve taças de cristal, saca-rolhas, garrafas e paladares sem idéias preconcebidas. "O vinho se transformou em um agente do esnobismo e uma vítima do marketing que derrama no mercado bebidas super-alcoólicas, doces e com sabor de madeira", acredita ele. Mais do que teorizar, Nossiter se tornou o defensor de pequenos produtores de diferentes procedências ao preparar a carta de vinhos de alguns dos mais prestigiosos restaurantes do Rio: Roberta Sudbrack, Aprazível e 66 Bistrô. Sem falar em harmonizações que organiza a pedido de confrarias gastronômicas. "É meu guru", garante o jornalista Renato Machado, que apresenta o programa Menu Confiança, com Claude Troisgros, na GNT. "É um cruzado, um romântico que batalha pelas pessoas que têm ligação com o terreno, e não com o método industrial", completa, referindo-se à globalização que atingiu o mundo do vinho nos últimos anos.

Não adianta procurar um capítulo para as garrafas chilenas ou argentinas nas cartas assinadas por Nossiter. "Para mim, 99% desses vinhos não prestam", dispara ele, em um português carregado de expressões em espanhol, francês e inglês. "Pode até ser mais barato do que os europeus, mas não é vinho." Em lugar dos caros, elogiados e saborosos Catena Zapatas e Almavivas, ele colocou rótulos desconhecidos por aqui, como o gaúcho Vallontano e o catarinense Cave Ouvidor. "São vinhos verdadeiros, menos alcoólicos, mais adequados ao nosso clima. Eles me emocionam", afirma. Radical? Sim, assumidamente. "É uma espécie de dom-quixote da uva", define Fredy Schlesinger, representante da vinícola Dal Pizzol no Rio. "Ele defende com radicalismo suas convicções. Isso é muito bom", afirma o enólogo Luiz Henrique Zanini, da vinícola Vallontano, de Bento Gonçalves. "Porque o mundo do vinho é recheado de vaidades e comportamentos mornos."

A primeira carta preparada por Nossiter foi para Roberta Sudbrack, a chef que fez fama cozinhando para o então presidente Fernando Henrique Cardoso e que comanda um sofisticado restaurante no Jardim Botânico. "Ele veio aqui, elogiou a comida, mas disse que a carta estava toda errada e brigava com a cozinha", recorda-se a chef, que havia acabado de ver seu documentário. "Roberta faz uma cozinha leve e sutil. Era um absurdo ter vinhos assassinos em sua carta", explica Nossiter. Apesar do risco de desagradar à clientela, Roberta resolveu embarcar na proposta de Nossiter, que incluía mais italianos e alemães e nenhum representante do Cone Sul. "Na primeira semana, nós quase apanhamos. Na segunda, também", diverte-se a chef quase dois anos depois. Para o Aprazível, charmoso restaurante em Santa Teresa, a proposta foi ainda mais radical. "Como fazemos uma comida brasileira contemporânea, ele sugeriu uma carta em que 70% dos rótulos são brasileiros", diz Pedro Hermeto, filho da chef Ana Castilho. No 66, bistrô do chef Claude Troisgros no Jardim Botânico, deu ênfase aos vinhos franceses, mas deixou um bom espaço para os nacionais. "Foi meio radical, e o público estranhou", admite Troisgros. Mesmo assim, ele está negociando com Nossiter uma carta para seu quartel-general, o restaurante Olympe. "Pensamos em ter duas cartas: uma do Claude e outra do Jonathan", explica o chef. Críticos como o jornalista Marcelo Copello, da revista Adega, olham para as sugestões de Nossiter com reservas. "Por um lado, ele traz produtos muito interessantes; por outro, penaliza quem deseja simplesmente tomar um vinho bom e barato e não compartilha as mesmas opiniões dele", afirma Copello. O sommelier Dionísio Chaves vai além. "Uma carta de vinhos deve representar os interesses dos clientes, não os do profissional", diz. "Ao abolir os vinhos chilenos e argentinos, ele está indo contra o consumidor. Acho que isso tem mais a ver com uma postura ideológica do que simplesmente com o que está dentro da garrafa."

A paixão de Jonathan Nossiter pelo Brasil, e pelo Rio em particular, começou há mais de vinte anos, por causa da literatura. Quando ainda fazia faculdade de Belas Artes, em São Francisco, na Califórnia, encantou-se com Machado de Assis. "Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba estão entre as maiores obras da literatura universal", diz. "Além disso, são uma perfeita tradução da ironia carioca." Tão grande é a paixão pelo universo machadiano que ele não hesitou em sugerir a Paula, quando iam para a maternidade, em abril de 2005, que escolhessem o nome Capitu para um dos bebês prestes a nascer. "Eram gêmeos, e ela estava convencida de que seriam dois meninos ou um casal. Só por isso concordou", lembra-se. Vieram duas meninas: Miranda e, é claro, Capitu. Um ano e um mês mais tarde, chegou Noah. "Decidimos deixar Paris e vir para o Rio porque queríamos que nossos filhos fossem criados aqui", conta Paula. "Francês gosta mais de cachorro do que de criança", acrescenta Nossiter no mesmo fôlego.

O casal havia se conhecido em 2003, na capital francesa, numa festa de aniversário de Paula, apresentados pelo cineasta Karim Ainouz (de O Céu de Suely). "Foi meu presente", brinca Paula, que ainda resistiu às investidas por um tempo. "Eu me apaixonei quando ele me convidou para um almoço em sua casa. Fiquei olhando aquele homem naquela cozinha americana", diz ela. "E, ainda por cima, ele cozinha bem!" A essa altura, Nossiter finalizava Mondovino, seu quarto longa. Trazia no currículo um prêmio no Festival de Sundance em 1997, por Sunday, seu primeiro filme, em uma carreira que começou como assistente de direção de Adrian Lyne em Atração Fatal. Paula trabalhara como fotógrafa em Central do Brasil e Diários de Motocicleta, ambos de Walter Salles, e igualmente adorava vinhos e boa comida. Há alguns anos, antes de ir para a França, teve um restaurante ítalo-japonês – seja lá o que isso signifique – em São Paulo.

A curiosidade sobre os vinhos brasileiros começou quando o casal se mudou para o Rio. "Jonathan saiu experimentando tudo o que achava. Bebemos muito vinho ruim", relata Paula. A situação mudou no segundo semestre do ano passado, quando ele foi convidado a participar de uma avaliação da safra 2006 no Rio Grande do Sul. "Os críticos falavam maravilhas de tudo, e eu me levantei para dizer que estava muito preocupado com os rumos da produção no Brasil", lembra. Na platéia estava o enólogo Luiz Henrique Zanini, da Vallontano. "Ele dizia coisas que eu pensava, como o respeito pela identidade cultural e pela terra", conta Zanini. Foi o início de uma bela amizade. Semanas depois, o cineasta recebia em casa uma caixa com quinze garrafas. "Disse à Paula: 'Nossa, vai ser uma semana difícil para o nosso paladar'. Mas me surpreendi agradavelmente. Aquilo era uma coisa verdadeira, brasileira, diferente. Foi emocionante." Nossiter reconhece que esses vinhos nem sempre vão agradar a todos os paladares. "Como a obra de Pasolini não agrada a todo mundo", compara, citando o polêmico cineasta italiano. "Mas a história do cinema é melhor porque existiu um Pasolini."

Entre uma provocação e outra, uma carta de vinhos aqui e outra ali, ele tem se mantido ocupado na vida carioca. Escreveu um livro, O Gosto e o Poder, que será lançado neste ano na França e em 2008 no Brasil. Gosta de cozinhar em casa para os amigos. Passeia com as crianças no Jardim Botânico, na praia e em museus. "Elas adoraram o Museu de Arte Moderna. Corriam para lá e para cá", diz. "Jonathan é uma pessoa muito simples. Apesar de conhecer o mundo todo, ele não tem nada de esnobe", descreve o enólogo Zanini. "É emotivo, capaz de chorar diante de uma cavaquinha bem-feita", afirma Roberta Sudbrack. A chef, aliás, revela uma das particularidades do gosto do amigo. "Como bom americano, quando ele vem ao meu restaurante não dispensa o hambúrguer, nem quando traz alguém aqui para uma degustação de vários pratos", entrega. Ninguém é perfeito.


Sugestões para montar uma adega básica
A pedido de Veja Rio, Jonathan Nossiter indica bons vinhos nacionais, com preços entre 15 e 40 reais, e dá sua opinião sobre cada um deles

Tintos
Vallontano Tannat 2004: muito persistente e potente. Vai bem com carne vermelha e com feijoada.
Vallontano Merlot 2004: um dos melhores e mais sofisticados do Brasil. Para pratos de carne e de massa mais refinados.
Cave Ouvidor Cabernet-Merlot 2004: muito energético, combina com quase tudo.
Angheben Barbera 2004: quase selvagem, tanto na textura quanto nos sabores. Vai bem com massa ao molho de tomate.
Dal Pizzol Ancellotta 2004: suculento, frutado, completo. A mais recente inovação da Dal Pizzol.
Dal Pizzol Tannat 2004: baixo teor alcoólico, alta acidez. Combina com todas as carnes vermelhas e aves.
Quinta Ribeira do Mattos Cabernet 2005: de uma nova e pequena vinícola (3 hectares). Bem estruturado, sem a marca de madeira nova.
Don Abel Pinot Noir 2005: leve, frutado. Ideal para peixes carnudos, como salmão e atum.

Brancos
Dal Pizzol Gewurztraminer 2006: claro e seco, combina com todos os peixes e frutos do mar.
Casa Valduga Gewurztraminer 2006: com mais corpo e fruta do que o Dal Pizzol.
Caminhos de Pedra Peverella 2006: perfumado, de um tipo de uva malvasia. Vai bem com moqueca ou prato picante.

Espumantes
Vallontano Moscatel Espumante: para aperitivo ou sobremesa, de baixo teor alcoólico. Também combina com pratos picantes.
Angheben Espumante: persistente e equilibrado, pode acompanhar a refeição.
Cava Geisse Espumante: de peso médio, seco e mineral. Ótimo com sushi.
Marson Espumante: simples, agradavelmente frutado. Bom custo-benefício.


Quinze filmes para ver em casa bebendo um bom vinho, segundo Nossiter
Com tinto
Terra Estrangeira (Brasil/Portugal, 1996), de Walter Salles e Daniella Thomas
Faces (Estados Unidos, 1968), de John Cassavetes
O Pântano (Argentina, 2001), de Lucrecia Martel
O Evangelho Segundo São Mateus (Itália, 1965), de Pier Paolo Pasolini
Iracema (Brasil, 1976), de Jorge Bodansky e Orlando Senna

Com espumante
Amor na Tarde (Estados Unidos, 1957), de Billy Wilder
Casanova e a Revolução (França/Itália, 1982), de Ettore Scola
Como se Fosse a Primeira Vez (Estados Unidos, 2004), de Peter Segal. Com Adam Sandler
Como Era Gostoso o Meu Francês (Brasil, 1971), de Nelson Pereira dos Santos
Sabrina (Estados Unidos, 1954), de Billy Wilder

Com branco
Memórias do Subdesenvolvimento (Cuba, 1968), de Tomaz Alea Gutiérrez
Madame Satã (Brasil, 2002), de Karim Ainouz
8 e 1/2 (Itália, 1963), de Federico Fellini
A Vida de Brian (Grã-Bretanha, 1979), de Terry Jones
Os Boas-Vidas (Itália, 1953), de Federico Fellini


Onde encontrar os vinhos favoritos de Jonathan Nossiter


Fonte: Veja Rio on-line
 
 
13.3.2009
Ranking dos 100 melhores vinhos da Revista Prazeres da Mesa
 
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Revista Sexy: Vinhos Nacionais - Angheben
 
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Ed Motta: Os melhores vinhos do Brasil
 
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